"... o sexo é fisiológico e diz respeito às diferenças biológicas entre machos e fêmeas da espécie humana. O sexo é determinado pelas características físicas, equipamento biológico que, de fato, é diferente em homens e mulheres. Já o gênero é cultural, ou seja, ser homem ou ser mulher não implica apenas na fisiologia, mas também em incorporar comportamentos, desempenhar papéis e funções sociais que historicamente foram designadas como masculinas e femininas" (TAVARES, 2006).
É visível que a mulher negra tem desvantagens no acirrado mercado de trabalho. A escassez de oportunidades é sentida fortemente por essas mulheres. Observa-se que os maiores percentuais da mulher negra no universo do trabalho encontra-se relacionados ao emprego doméstico, sendo que essa atividade é extremamente desvalorizada e estigmatizada pela sociedade.
Mesmo nessa era, caracterizada pelo super avanço da ciência e também da tecnologia, a mentalidade de alguns indivíduos parece ainda estar com laços arraigados no passado.
Infelizmente, parece que o lugar e as atividades destinadas a mulher negra "como local e forma de trabalho" permeia nos imaginários como subalternos ligados aos trabalhos manuais e a cozinha. Essas atividades são caracterizadas por baixos salários, jornadas de trabalho elevadas e de na sua grande maioria estarem À margem da legalidade.
Alguns casos são extremamente absurdos, pois apesar de ocuparem o mesmo cargo ou função, as mulheres recebem salários inferiores as mulheres brancas. De acordo com SILVA (2003) as mulheres negras que conseguem conquistar um cargo melhor dependem de maior força que outros setores da sociedade. Até hoje ainda paira no ar o legado da escravidão, assim é difícil a mobilidade ascensional da mulher negra na conquista de um emprego melhor, pois a maioria das suas antepassadas sempre trabalhou na informalidade, ou como empregadas domésticas.
Essa aparente falta de espaço para as mulheres pode ser revertida através da conscientização e educação. Somente com uma boa formação escolar essas mulheres poderão se empregar, exigir seus direitos e afirmar seus espaços na sociedade.
Referência: SILVA, Maria Nilza da. As mulheres negras. Revista Espaço Acadêmico. Ano II - Nº 22, Março de 2003.
O discurso feminista do direito ao corpo
não é algo de agora, haja vista as mobilizações encabeçadas pelo lema “nosso
corpo nos pertence” surgido por volta do final dos anos 60 por feministas
norte-americanas. Mas,
recentemente, ganhou novo fôlego, devido à polêmica gerada pela Marcha das Vadias, que trouxe novamente para o debate da sociedade brasileira questões
como igualdade de direitos entre os gêneros, direitos reprodutivos e sexuais, violência
contra as mulheres e o bom e velho
machismo.
Apesar
de tais assuntos serem considerados por alguns (as) como “batidos”, o que
contribui para estes estarem até os dias de hoje causando polêmica é,
justamente, por conta de toda uma carga histórica de patriarcado, misoginia,
machismo e todas as outras heranças
malditas que a sociedade ainda insiste em perpetuar. Uma sociedade que em pleno século XXI, ainda
defende ser o corpo e a vida das mulheres propriedades de todos, menos dela
própria e, desta forma lhe dita como ser, comportar, vestir e pensar.
Acrescendo-se a tudo isso, a existência de uma pseudo-laicidade do governo
brasileiro que permite que a moral religiosa possa interferir na ordem
jurídica, fazendo com que, consequentemente, antigos estigmas e estereótipos
religiosos e moralistas continuem a atribuir o papel ou a utilidade da mulher
na sociedade.
Então,
o que vemos é a clássica tipificação dicotômica da mulher entre a “santa” e a
“puta”. A santa é a mãe, a dedicada, infantilizada, frágil, aquela defendida
pelos preceitos religiosos e cujo único propósito de vida é casar-se e
dedicar-se à casa, aos filhos e, claro, ao marido; Do lado oposto está a puta,
vadia, mulher fácil, despudorada, aquela que se deve abominar, pois esta quer
acabar com a ordem social estabelecida, tomar o lugar dos homens, acabar com a
família, a moral...
Há hoje
quem defenda – revistas, programas de TV, propagandas, etc. que se dizem
direcionados para o público feminino – a mulher ambígua, santa na rua e puta na cama, não sabendo @s tais que, esta é apenas
uma forma mais sutil de mascarar a tentativa de dominação e regulação da vida
dessas mulheres, ou seja, aquela falsa liberdade de que algumas se gabam.
Desta
forma, o que se percebe é certa camuflagem e naturalização de tais estereótipos
pela sociedade, o que inclui as próprias mulheres, que pressionadas a seguir
tais padrões de conduta, só veem a possibilidade de escolha entre essas duas
opções, ou ser “santa” ou ser “puta”, algumas vezes, literalmente.
Aquelas
que, por ventura, se recusam a aceitar tais estereótipos são consideradas as
subversivas, as polêmicas, mal amadas que precisam ser combatidas, pois são
ameaças ambulantes aos bons costumes. As feministas que o digam! Essas que vêm tentando ao longo dos anos
conscientizar a sociedade e, em especial, as próprias mulheres a lutarem por
igualdade de direitos e autonomia de poder serem donas de suas vidas, de seus
corpos, sem serem violentadas, discriminadas nem oprimidas por isso, são alvos
de questionamentos, piadas, discriminação, descrédito e desfiguração de seus
ideais e bandeiras.
Podemos
dizer que o momento em que as ideias feministas começaram a incomodar a sociedade tenha sido a
partir das décadas de 60/70, onde o feminismo falava sobre a necessidade de
instrumentos de resistência e mobilização por parte dos movimentos de mulheres a
engajar-se, primeiramente, na luta por direitos políticos (votar, ser eleita);
e mais tarde na luta por direito ao corpo, liberdade e prazer, ou seja, a
revolução sexual.
Os
movimentos feministas procuram e procuraram, ao longo dos anos, fazer surgir
uma “nova mulher” livre das amarras que sempre a prendeu. Contudo, o mercado e
a mídia sempre ávidos por lucros, seguindo a lógica de funcionamento da
sociedade capitalista, deturparam a imagem dessa “nova mulher” pretendida pelo
feminismo e, a fim de atrair consumidores e telespectadores, começam então, a
mercantilizar e objetificar a imagem da mulher e de seu corpo. Assim, passa a
ser um meio eficaz de venda e audiência a exploração sexual do corpo e da
imagem da mulher em programas de TV, filmes, novelas, propagandas, anúncios,
nas artes em geral.
No entanto, paradoxalmente, à objetificação
adotada pelos mercados e a mídia, o comportamento sexualmente liberado das
mulheres assusta e indigna as
sociedades mais conservadoras, como o Brasil, que julga e condena tais mulheres.
E, o que assistimos até hoje é a sexualidade feminina ainda ser tratada como um
tabu. A sociedade não entender que assim como os homens, as mulheres gostam de
sexo, de exercer sua sexualidade livremente, longe de regras e padrões; que a
mulher sente desejo e quer ter prazer e que isso nada tem a ver com seu
caráter, ou falta dele.
Na
cultura brasileira mesmo, onde a imagem representada internacionalmente é,
justamente, a figura de uma mulata, seminua, sambando ao som de um pandeiro
(aliás, este é outro grave problema na questão da objetificação do corpo
feminino: a mulher negra, aquela que historicamente foi tratada e retratada
como a sexualmente ativa, um pedaço de carne sempre disponível para o consumo,
antes do senhor de engenho, hoje de qualquer um), há quem se ache no direito de
chamar e tratar uma mulher como vagabunda,
puta,vadia, piriguete, ou culpá-la por um estupro, um assédio, pelo simples
fato dela usar uma roupa curta, ou decotada, por seu jeito de andar, seu
comportamento sexual, por namorar ou transar com mais de um homem (o que é
aceitável para um homem).
E, é
por esse moralismo, conservadorismo e preconceito existentes, ainda hoje, que o
Brasil esta longe de ser um país verdadeiramente democrático, que respeita as
diversidades. Pois sempre que surge qualquer tentativa de abalar ou questionar
os padrões sociais estabelecidos, esta é rechaçada, banalizada ou contestada,
como foi a polêmica em torno da Marcha das Vadias.
Primeiramente,
pela forma como as mulheres saíram em marcha, despidas – com seios e barrigas à
mostra com frases de efeito pintadas, cinta-liga, sutiã e todo tipo de trajes
que fazem parte do fetichismo masculino e são também, muitas vezes, as
justificativas dadas por quem discrimina, agride, assedia e ofende mulheres;
Depois, por conta do nome do movimento, pois os “politicamente corretos”
acharam um absurdo as protestantes se auto-intitularem vadias, já que este é um xingamento designado a “mulheres fáceis”,
argumentando ainda, que tais atitudes só contribuíram para tirar a
credibilidade da marcha.
Mas, é
claro que tal polêmica não foi produzida somente por ignorantes, desconhecedor@s
do real objetivo de tais atitudes das participantes do movimento, mas também
fez parte de uma estratégia daquel@s que não querem ver conquistados os
direitos pelos quais a marcha reivindica; aquel@s a quem interessa que as
mulheres sejam subjulgadas, oprimidas, pelas suas roupas, seu comportamento sexual
e afetivo, a quem interessa a dominação sobre a mulher e a invalidação de
qualquer tentativa de libertação.
E, mesmo que algumas daquelas mulheres
presentes na marcha, ou fora dela, quisessem reivindicar o direito de exibir
seus corpos, quer seja para homens ou para si, porque lhe gera conforto,
satisfação e auto-estima, o que tem de errado nisso? Afinal, não somos todos
“livres” para nos expressar e viver da forma que nos convier? Desde que se
respeite a liberdade e o espaço do outro, todos, em tese, fazem o que bem
entender de suas vidas...
Por que
então se incomodar com o que @ outr@ esta vestindo ou fazendo? Se a mulher
decide pela não maternidade, ou se relacionar sexualmente com outra mulher, ou
se ela quer ter uma carreira profissional e ser mãe, vestir roupa curta,
namorar muit@s... Essa foi uma escolha dela, ninguém precisar concordar, apenas
respeita-la!
Por
fim, não se trata de apologia à promiscuidade ou “falta de vergonha”, mas uma questão de reivindicação de
direitos.Direitos que mulheres de diferentes épocas lutaram e lutam até hoje,
por conquistar; direitos universais e que devem ser garantidos a todo e
qualquer ser humano, independente do seu sexo, cor, religião ou posição social.
Trata-se
da busca incessante por liquidar todos os métodos disciplinares (a la
Foulcault), opressores, repressores, violentos e dominadores que colocam a
mulher em uma posição inferior, negando-lhe, muitas vezes, sua humanidade,
inteligência, cidadania, poder de escolha e decisão. A opressão simbólica e
real que ainda faz parte, implícita ou explicitamente, dos discursos e dos
valores culturais dominantes.
Muito
já foi conquistado, não podemos negar, mais muito ainda precisa ser feito,
mobilizado, reivindicado enfrentado e questionado, para que, enfim, mulheres
possam exercer suas escolhas e comportamentos sexuais da forma como bem
entenderem, sem violência ou repressão e que:
“conquiste o direito de ser uma nova mulher
Livre, livre, livre para o amor...
Quero ser assim, quero ser assim
Senhora das minhas vontades e dona de mim...”
(Simone, “uma nova mulher”)
Quando
me deparo com esta questão pergunto-me sempre porque se espera tanto desta
construção: “ser” MULHER. Sim, porque “ser mulher” é uma construção social. A
sociedade dita o que devemos vestir, como devemos falar, sentar, andar. Quando
devemos ter filhos, quando devemos nos casar, qual profissão devemos escolher.
A sociedade também dita onde devemos ficar, qual o nosso lugar, quando devemos
atuar.
Ser
mulher me parece mais com a construção de uma personagem. Personagem construída
ao longo da história e que não deve sair do script, porque sofre retaliação.
Retaliação dos homens, de outras mulheres, da família, do ambiente de trabalho,
enfim de toda sociedade.
Por
muito tempo, praticamente um único espaço cabia às mulheres na sociedade: o
espaço privado. Em uma sociedade patriarcal e machista, por muito tempo
considerou virtude excelente às mulheres a submissão.
Numa
entrevista, no ano de 1967, uma atriz brasileira, Ítala Nandi afirma: “A única
liberdade que goza a mulher brasileira é a de escutar o homem, curvando a
cabeça. Ela não participa de nada, não sabe de nada. E não porque não quer, mas
porque não pode”(TONELLO, 2011) .
Ao longo da história, com as chamadas ondas
feministas, o cenário foi mudando. A “primeira onda” teria se desenvolvido no
final do século XIX e centrado na reivindicação dos direitos políticos e dos
direitos sociais e econômicos. “A segunda onda” surgiu depois da Segunda Guerra
Mundial, e deu prioridade às lutas pelo direito ao corpo, ao prazer, e contra o
patriarcado (PEDRO, 2005).
No
Brasil o movimento feminista tornou-se mais visível após a ditadura, mais
especificamente na década de 1980. Porém, ao longo da história do país, por
volta dos anos 1970, mulheres como Chiquinha Gonzaga e Maria Josephina Durocher
lutaram por causas abolicionistas e republicanas. Muito antes temos o registro
de Maria Quitéria, que em 1808, se fez passar por homem para lutar pela
independência. E tardiamente para a história do país, em 1934, temos a primeira
deputada brasileira, Carlota Pereira (TONELLO, 2011).
Quanto
aos direitos políticos as mulheres brasileiras trilham um longo processo de
movimentos reivindicatórios. Segundo pesquisa de Tonello (2011), em 1910, a
professora Leolinda Daltro funda o Partido Republicano Feminino e, em 1917,
lidera uma passeata exigindo o direito de voto às mulheres. Nesse mesmo ano, a
pintora Anita Malfatti faz a primeira mostra do que será considerada a arte
moderna brasileira, seguida por Tarsila do Amaral. No ano seguinte, a bióloga Bertha Lutz contesta o
tratamento dado às mulheres na Revista da Semana, nos anos seguintes ela se
tornará uma das líderes da luta pelo voto feminino. Depois de toda esta pressão
social, em 1932, as mulheres brasileiras conquistam o direito ao voto, aprovado
pelo então presidente, Getúlio Vagas, que aprova o novo Código Eleitoral com o
direito de voto feminino. Nessa trajetória da mulher na política, não tem como não citar Patrícia Galvão (1910-1962), ou simplesmente Pagu, foi militante do partido comunista em 1931. Segundo Pontes (2006), ela é uma figura emblemática do feminismo que se organizava naquela época, símbolo da mulher emancipada e libertária, escritora concretista, Patrícia Galvão virou uma espécie de ícone capaz de atender e preencher demandas e conteúdos diversos, cuja vida inspirou o lançamento do periódico Cadernos Pagu, criado em 1993, tornou-se um dos principaisperiódicosbrasileiros centrados na problemática de gênero, divulga reflexões teórico-metodológicas, resultados de pesquisa, documentos e resenhas, abordados a partir de diferentes perspectivas teóricas. (http://www.pagu.unicamp.br).
Ao
acompanharmos a trajetória feminina no país e no contexto mundial, constatamos
que muitos direitos foram conquistados. Cada dia mais percebemos que o espaço
da mulher na sociedade não se restringe mais ao espaço privado. Encontramos
mulheres atuando em diversas áreas e cada dia mais atuante no cenário político.
Porém, existe ainda muito preconceito e para as mulheres estarem em lugares
eminentemente masculinos elas são exigidas a apresentarem determinadas
posturas, segundo Tavares (2006), para a mulher transitar no meio político (e acrescento aqui, qualquer outro meio profissional onde antes era majoritária a presença masculina, como no Direito, nos cargos de chefia) e ser respeitada, a mulher deve demonstrar recato, usar um vestuário sóbrio (o terninho) e, principalmente, adotar uma postura assexuada, isto é, deve sublimar sua sexualidade e evitar quaisquer demonstrações de afeto, o que não é exigido do homem. E assim, a sociedade continua ditando sua maneira de vestir, andar,
falar, ditando o seu comportamento em geral. Sofrendo ainda, retaliação,
crítica e descrédito quando alguma atitude sua foge do que se espera dela. Ou
seja, a cobrança com o que deve ser uma mulher é muito grande, fazendo do
gênero uma espécie de instrumento de manipulação e dominação.
REFERÊNCIAS
TONELLO, Márcia Nogueira. A longa caminhada da mulher no Brasil: a chegada de Dilma Rousseff à Presidência marca um momento importante da luta secular das mulheres por igualdade e respeito. Guia do Estudante: Atualidades - Vestibular + Enem. 13. ed. São Paulo: Abril, 2011. p. 120-124.
CARDOSO, Ruth; CHAUÍ, Marilena; PAOLI, Marilena.Perspectivas Antropológicas da Mulher. 1. ed.Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
TAVARES, Márcia. "Por que falar em gênero?". Texto elaborado para a disciplina Seminários Temáticos I do Curso de Serviço Social à distância da Universidade Tiradentes/ SE, 2006. Disponível em: <http://unitead.micropower.com.br>.
No início da colonização,
o território brasileiro era um vasto espaço ocupado esparsamente por nações
indígenas, com os portugueses estabelecendo-se a partir da costa. O choque
entre as duas culturas incluía o papel da mulher. Nas sociedades tribais, a
divisão simples de trabalho entre homens e mulheres era focada na sobrevivência
cotidiana em meio a condições selvagens. Aos poucos, os portugueses impõem, a
partir dos núcleos coloniais, a moral e as regras da sociedade patriarcal
europeia e portuguesa.
Assim, as relações
familiares - em especial entre as classes mais ricas – organizam-se a partir da
autoridade do chefe de família, pois o casamento é uma instituição básica para
a transmissão do patrimônio. Nesse período histórico, as uniões são guiadas por
interesses econômicos. As mulheres são confinadas ao espaço doméstico, suas
vestimentas públicas, com frequência, cobrem o corpo todo, e se submetem à
figura do patriarca, que exerce forte domínio sobre o clã familiar (TONELLO,
2011).
REFERÊNCIA: TONELLO, Márcia Nogueira. A longa caminhada da mulher no Brasil: a chegada de Dilma Rousseff à Presidência marca um momento importante da luta secular das mulheres por igualdade e respeito. Guia do Estudante: Atualidades - Vestibular + Enem. 13. ed. São Paulo: Abril, 2011. p. 120-124.
Pandora foi a primeira mulher que
existiu, criada porHefesto(deus do fogo, dos metais e da
metalurgia) e Atena(deusa da
guerra, da civilização, da sabedoria, da arte, da justiça e da habilidade) auxiliados
por todos os deuses e sob as ordens de Zeus. Cada um lhe deu uma qualidade.
Recebeu de um a graça, de outro a beleza, de outros a persuasão, a
inteligência, a paciência, a meiguice, a habilidade na dança e nos trabalhos
manuais. Hermes, porém, pôs no seu coração a traição e a mentira. Feita à
semelhança das deusas imortais, destinou-a Zeus à espécie humana, como punição
por terem os homens recebido de Prometeu o fogo divino. Foi enviada a Epimeteu,
a quem Prometeu recomendara que não recebesse nenhum presente dos deuses.
Vendo-lhe a radiante beleza, Epimeteu esqueceu quanto lhe fora dito pelo irmão
e a tomou como esposa.Epimeteu tinha em seu poder umacaixaque outrora lhe haviam dado os deuses,
que continha todos os males. Avisou a mulher que não a abrisse. Pandora não
resistiu à curiosidade. Abriu-a e os males escaparam. Por mais depressa que
providenciasse fechá-la, somente conservou um único bem, a esperança. E dali em
diante, foram os homens afligidos por todos os males.
Hesíodoconta duas vezes o mito
de Pandora; naTeogonianão lhe dá nome, mas diz: Dela vem a
raça das mulheres e do gênero feminino: dela vem a corrida mortal das mulheres
que trazem problemas aos homens mortais entre os quais vivem,nunca companheiras
na pobreza odiosa, mas apenas na riqueza..Hesíodo segue lamentando que aqueles
que tentam evitar o mal das mulheres evitando o casamento não se sairão melhor:
Ele chega à
velhice mortal sem ninguém para cuidar de seus anos, e, embora, pelo menos, não
sinta falta de meios de subsistência enquanto ele vive, ainda, quando ele está
morrendo, seus parentes dividem suas posses entre eles.Hesíodo admite que, ocasionalmente, um
homem encontra uma mulher boa, mas ainda assim o "mal rivaliza com o bem”.(Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pandora).
P.S.: “Costuma
ser um lugar-comum, em inúmeras mitologias, o aparecimento recorrente da “caixa
de Pandora”, isto é, a imprudência feminina como causa de males para o gênero
humano. Aliás, é interessante observar que a “curiosidade imprudente” costuma
ser invariavelmente um atributo feminino, como se houvesse nas mulheres um
peculiar “desejo de saber” catastrófico, um impulso à transgressão que
contrasta paradoxalmente com a imagem da docilidade e da obediência (imagem que
as tragédias gregas e as lápides romanas não nos deixam circunscrever apenas à
mulher “vitoriana” do século XIX). Poderíamos, com certa perplexidade, indagar
se a “curiosidade imprudente” atribuída às mulheres não exprimiria muito mais
desejos e fantasias masculinas do que ‘instintos’” femininos” (CHAUÍ et al,
1981, p.28).
REFERÊNCIA:
CARDOSO, Ruth; CHAUÍ, Marilena; PAOLI, Marilena.Perspectivas Antropológicas da Mulher. 1. ed.Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
Tlazoltéotl, lua mexicana, deusa da noite asteca, nasceu num lugar conhecido como panteón machista dos astecas.
Ela era a mãe que guiava a viagem das sementes até
as plantas. Deusa do amor e também do lixo, condenada a comer lixo, encarnava a
fecundidade e a luxuria.
Como Eva e como Pandora, Tlazoltéotl era a culpada por toda perdição dos homens. As mulheres que nasciam no seu dia eram condenadas ao prazer. E quando a terra tremia, por vibração suave, ou por terremoto devastador, ninguém duvidava de que era ela a causadora dos abalos...
Egipcias
No Egito as mulheres, fossem nobres ou plebeias, se
casavam livremente e não renunciavam nem aos seus nomes, nem aos seus bens. A educação, a propriedade, o trabalho e a herança
eram direitos delas, e não só dos homens, e eram elas que faziam as compras
no mercado, enquanto os homens ficavam cuidando da casa... O Egito foi um claro
exemplo de civilização antiga igualitária.
Hebreias O Antigo Testamento conta que as filhas de Eva
seguiam sofrendo o castigo divino.
Poderiam morrer apedrejadas, as adúlteras, as
feiticeiras e as mulheres que não fossem mais virgens no matrimonio. Iam para
fogueira as filhas de sacerdotes que fossem prostitutas.
Durante quarenta dias ficava impura a mulher que
tinha um filho, e durava oitenta dias a impureza se o filho fosse uma menina.
Impura era a mulher menstruada. Sua impureza durava sete dias e
sete noites, e transmitia sua impureza a toda pessoa que a tocava ou que tocava
a cadeira ou a cama donde dormia...
Hindus
Mitra, mãe do sol e da água, foi deusa desde o dia
que nasceu. Quando chegou na Índia, desde Babilônia, a deusa teve que se converter em deus.
Já se passaram muitos anos desde a chegada de Mitra e
ainda as mulheres não são bem-vindas na Índia. Há menos mulheres que homens lá. Em
algumas regiões são oito mulheres para cada dez homens. São muitas as que não finalizam sua
viagem porque morrem no ventre da sua mãe e muitas as que são asfixiadas ao nascer.
A tradição mandava que as mulheres morressem
queimadas na fogueira que ardia o seu defunto marido. Durante séculos,
muitas o fizeram, porém, não se conhece nenhum caso de marido que fosse
queimado na fogueira de sua defunta mulher...
Romanas
Cicero explicava que as mulheres deviam estar
submetidas aos homens devido a debilidade do seu intelecto.
As romanas passavam das mãos de um homem às mãos de outro homem. O pai que casava sua filha a vendia para o seu marido em propriedade ou emprestado. A única coisa importante era seu
patrimônio e sua herança.
Os médicos romanos achavam que as mulheres, todas
patrícias, plebeias ou escravas, tinham menos dentes e menor cérebro que os
homens.
Plínio ‘O Velho’, a maior autoridade cientifica do
império, demonstrou que a mulher menstruada fazia o vinho novo mais azedo,
esterilizava as colheitas, secava as sementes e as frutas, matava as plantas e
fazia com que os cães enlouquecessem...
Gregas
De uma dor de cabeça de Zeus nasceu Atena. Ela
nasceu sem mãe.
Tempos depois seu voto foi decisivo no tribunal dos deuses.
Amargurada e impulsiva, Electra, levada mais pela fúria do que pela maldade, induziu seu irmão, Orestes, a assassinar sua mãe, vingando a morte de seu pai.
Apolo assumiu a defesa expondo que os acusados eram
filhos de uma mãe indigna e que a maternidade não tinha a menor importância.
Dentre os treze deuses do tribunal, seis votaram
pela condenação e seis pela libertação de Electra e Orestes. Atena decidiu o desempate. Ela votou por conta da mãe que nunca teve e deu vida eterna ao poder masculino em Atenas...
Mulheres
históricas
Na historia
universal, escrita principalmente pelos homens, é bem difícil achar relatos de
mulheres que influenciaram de forma importante no decorrer dos anos. Mas
teve, e têm muitas, que pela sua valentia, sua luta pela igualdade de sexos e
sua capacidade intelectual conquistaram um lugar num mundo injustamente
masculino.
Agora seguem
alguns exemplos de mulheres históricas, algumas mais reconhecidas que outras,
mas todas elas muito importantes.
Urraca (1187-1220)
Foi a primeira rainha da Espanha. Governou durante dezessete anos, mas a historia conta que não foram mais que quatro...
Divorciou-se do marido que lhe foi imposto, farta de sofrer sua violência e o mandou embora da sua cama e do seu palácio. A historia conta que foi ele que a rejeitou...
Para que a igreja soubesse quem mandava e aprendesse a respeitar o trono feminino, a rainha Urraca mandou para o cárcere o bispo de Santiago de Compostela, pegando todos seus castelos, algo nunca visto nessas terras tão cristãs. A historia clerical conta que isso foi um simples ataque de loucura...
Teve muitos amores e muitos amantes, mas essas são coisas que a historia clerical tem vergonha de contar...
Trótula (sc. XI)
Enquanto as Cruzadas atravessavam a Ásia, Trótula Ruggerio morria em Salerno.
Não se sabe muita coisa dela já que a historia estava ocupada em registrar as proezas dos guerreiros de Cristo. Mas se sabe que foi a primeira mulher a escrever um tratado em ginecologia, obstetrícia e puericultura.
Na época as mulheres não se atreviam a mostrar seu corpo aos homens, por isso recorriam a ela para abrir seu corpo e sua alma, e contar todos seus secretos e todos seus problemas.
Trótula ensinava a aliviar a viuvez, a simular a gravidez, a como levar melhor um parto, a como evitar o mau alento, a branquear a pele e os dentes...
A cirurgia estava de moda, mas Trótula preferia outras terapias: a mão, as plantas, o ouvido. Fazia massagens, preparava infusões e sabia escutar.
Harriet Tubman (sc.XIX)
Viveu no Canadá. Ela foi uma escrava que com valentia, fugiu. Seu marido não foi com ela, ele preferia seguir sendo escravo e pai de escravos.
Ela regressou para libertar a seus pais e seus irmãos, e assim fez até dezenove viagens liberando mais de trezentos escravos negros.
Até quarenta mil dólares foram oferecidos em recompensa pela sua captura, mas ninguém os chegou a ganhar.
Olympia de Gouges (1748-1793)
São femininos muitos dos símbolos da Revolução Francesa, mas esta foi a Revolução que proclamava os Direitos do Homem e do Cidadão... Por isso que quando a militante revolucionaria Olympia de Gougues propôs a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadania foi presa e o Tribunal a sentenciou que lhe cortassem a cabeça na guilhotina.
Suas companheiras eram tomadas por loucas, e sua principal precursora Malon Roland, ainda sendo esposa do ministro de interior da França, tampouco se liberou da guillotina.
Emilia Pardo Bazán (1851-1921)
Como a educação não era para as mulheres, ela vestiu-se de homem para entrar na universidade.
Escreveu mais de 500 obras literárias, conjugando realismo e naturismo em suas obras, sempre mantendo um forte ativismo no campo dos direitos da mulher, sobretudo no direito a uma educação igualitária.
Também escreveu muito sobre o matrimônio, separou-se do seu marido e teve muitos amores, sem permitir nunca a supremacia do homem.
Ainda sendo uma das escritoras mais importantes da historia da Espanha, foi excluída da Real Academia da Língua. O motivo? ser mulher!
Marie Curie (1867-1934)
Foi a primeira mulher que recebeu o premio Nobel, e o recebeu duas vezes.
Foi também, a primeira mulher catedrática da Soborne e durante muitos anos a única.
Depois, quando já não podia celebrá-lo, foi a primeira mulher aceitada no Panteón, mausoléu reservado os grandes homens da França, ainda que ela não fosse homem e tivesse nascido na Polônia.
Ao final de século XIX, Marie Sklodowska e seu marido, Pierre Curie, descobriram uma substancia que emitia quatrocentas vezes mais radiação que o urânio. Chamaram polônio, em homenagem ao pais de Marie. Pouco depois, inventaram a palavra radioatividade e começaram seus experimentos com o radio, três mil vezes mais forte que o urânio. Juntos receberam o premio Nobel.
O corpo de Marie teve que pagar o preço do seu êxito. As radiações provocaram queimaduras graves e fortes dores, até que finalmente morreu de anemia.
Alexandra Kollontai (1872-1952)
Foi a única mulher que chegou a ser ministra no governo de Lennin.
Graças a ela, a homossexualidade e o aborto deixaram de ser crime, o adultério já não foi mais uma condenação à pena perpetua, as mulheres tiveram direito ao voto e igualdade de salários. Criou creches gratuitas, restaurantes populares e lavanderias coletivas.
Anos depois, quando Stalin decapitou a revolução, Alexandra conseguiu conservar sua cabeça. Mas deixou de ser ministra.
Victoria Kent (1889-1987)
Nascida em Madrid, em 1936, Victoria Kent foi eleita deputada do governo.
Sua popularidade veio pela reforma dos cárceres. Quando iniciou essa reforma, seus numerosos inimigos acusaram-na de entregar seu país, a Espanha nas mãos dos delinquentes. No entanto, Victoria que já tinha trabalhado nos cárceres e conhecia bem a dor humana seguiu adiante com seu programa.
Fechou as prisões em mau estado, que eram a maioria, inaugurou as permissões de saída, liberou todos os presos maiores de 70 anos, criou campos de desporte e lugares de trabalho voluntario e suprimiu as celas de castigo.
Doria Shafik
(1908-1975)
No
Cairo, em 1951, mil quinhentas mulheres invadiram o Parlamento.
Estiveram
lá durante horas. Clamavam que o Parlamento era mentira porque a metade da
população não podia votar nem ser votada.
Os
lideres religiosos, representantes do céu gritavam: “O voto degrada a mulher e contradiz a natureza”.
O
direito ao voto custou mas foi conquistado. Foi uma das conquistas da União de
Filhas do Nilo. O governo proibiu que a União se convertesse em partido político, e
condenou à prisão domiciliar a Doria Shafik, líder do movimento.
Isso
não foi nada estranho. Quase todas as mulheres egípcias estavam condenadas à prisão
domiciliar. Não podiam fazer nada sem permissão do pai ou do marido, e muitas
eram as que só saiam da casa em três ocasiões: para ir a Meca, para ir a sua
boda e para ir a seu enterro.
Referências:
GALEANO,
Eduardo. Espejos. Una historia casi
universal. Siglo XXI editores. Madrid, fev. 2008.