"... o sexo é fisiológico e diz respeito às diferenças biológicas entre machos e fêmeas da espécie humana. O sexo é determinado pelas características físicas, equipamento biológico que, de fato, é diferente em homens e mulheres. Já o gênero é cultural, ou seja, ser homem ou ser mulher não implica apenas na fisiologia, mas também em incorporar comportamentos, desempenhar papéis e funções sociais que historicamente foram designadas como masculinas e femininas" (TAVARES, 2006).


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO

            Atualmente, mesmo com a escolaridade maior que os homens, as mulheres brasileiras ainda sofrem com a desigualdade de gênero e recebem muito menos que eles. Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registra-se que essa diferença entre os rendimentos salariais é maior entre trabalhadores com níveis mais elevados de escolaridade e menor no setor publico
O pesquisador Cimar Azeredo, do IBGE, atribui essa contradição à atuação de homens e mulheres em diferentes funções no mercado de trabalho. No setor de saúde, por exemplo, há muitas mulheres trabalhando como enfermeiras e muitos homens trabalhando como médicos, profissão que dá um retorno financeiro maior. Da mesma maneira, há muitas mulheres trabalhando como professoras do ensino básico e muitos homens, como professores universitários, explica. Ainda há carreiras em que as mulheres não estão muito presente.
Os efeitos da crise econômica internacional dos últimos anos afetaram mais os homens que as mulheres no mercado de trabalho brasileiro, mas as desigualdades históricas de renda persistem. É o que mostra a pesquisa “Trabalho e Desigualdades de Gênero” divulgada pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
No ano passado, as mulheres ocuparam mais postos de trabalho do que foram criados e, por conta disso, a taxa de desemprego feminina recuou, ao contrário da masculina. Mas a pesquisa também mostrou que permanece grande a diferença entre os salários de homens e mulheres.
É interessante observar que, durante todos esses séculos, as mulheres lutaram por um espaço na sociedade, bem como no mercado de trabalho, e ainda assim, continuam tendo que conviver com tamanha desigualdade, imposta pelo sistema capitalista. Torna-se gratificante, no entanto, perceber o engajamento na busca pela alteração dessa realidade, sobretudo por parte dos movimentos feministas, que têm cada vez mais lutado para combater essa situação que abrange não apenas o Brasil, mas o mundo inteiro.
A desigualdade de remuneração é uma característica universal, análises feitas em diversos países, com diferentes níveis de desenvolvimento e de crescimento econômico, em um contexto de crise ou não, revelam que a desigualdade de remuneração é um elemento presente e persistente.
Um dos motivos que dificulta a mudança e o avanço no combate a tais desigualdades é o entendimento e aplicação do conceito “Trabalho de igual valor”. Situações nas quais um trabalhador e uma trabalhadora, com o mesmo nível de escolaridade e, desempenhando exatamente as mesmas funções, recebem remunerações de forma diferenciadas são facilmente encontradas. Porém, a desigualdade de remuneração, baseada em valores diferenciados e atribuídos ao trabalho executado, é mais difícil de ser identificada. No geral, percebe-se que a desigualdade de remuneração entre homens e mulheres é menor em países com sistemas centralizados de negociação coletiva e com menor dispersão salarial, e parece aumentar quando o pagamento é baseado na avaliação de desempenho.
É de extrema importância ressaltar ainda quem rege o sistema capitalista, sendo homens detentores de riquezas, que excluem o espaço das mulheres na sociedade, que mesmo tendo qualidade e quantidade em aperfeiçoamento nas diversas atividades, por conta de um histórico social preconceituoso e machista, ficam em desvantagem quando o assunto é igualdade de gênero em trabalho e salário.




Fontes:

            http://www.oitbrasil.org.br  
http://www.istoe.com.br

terça-feira, 16 de outubro de 2012

SERVIÇO SOCIAL: UMA PROFISSÃO EXCLUSIVA DO SEXO FEMININO?



Vivemos dentro de uma estrutura de poder sexista e patriarcal, o homem é o mais forte, o provedor, a mulher é o sexo frágil, que cuida dos filhos e do lar, criou-se uma falsa identidade, uma ideia de que a vida humana é pré-concebida, as pessoas quando nascem, dependendo do sexo, já tem seu destino decidido, se nascer uma menina a roupa será rosa, mas se for menino será azul, a sociedade ensina ao individuo “o que é certo e o que é errado”. Esses mesmos indivíduos, quando formados, passarão os ensinamentos às novas gerações como se essa formação fosse um ciclo, como em um jogo de xadrez, cada peça em seu devido lugar para que tudo ocorra perfeitamente. Em suma, é o gênero que define papéis sociais, características e comportamentos distintos entre homens e mulheres na sociedade.
O Serviço Social, desde sua gênese até os tempos atuais, tem sido um campo profissional dominado por mulheres, devido à ligação da profissão com a igreja, com a caridade, com a ajuda e cuidado ao próximo, justamente porque essas atribuições são consideradas exclusivas do sexo feminino. Nota- se que, desde sua gênese, com a criação das instituições de caridade e, posteriormente, com o Curso Intensivo de Formação Social para Moças, organizado pelo Ceas (Centro de Estudos e Ação Social), cujas participantes constituíam-se de jovens formadas em instituições religiosas de ensino, que tinham como objetivo assegurar o bem-estar da sociedade, a profissão foi sendo destinada exclusivamente como uma atividade feminina, por serem elas dotadas de uma “vocação natural”.
Na década de 1930, quando foram inauguradas as primeiras escolas de Serviço Social, a mulher era vista como aquela que devido a características consideradas natas, tinha o papel e a obrigação de educar, disciplinar e ajudar, características essas que são completamente opostas as que são atribuídas aos homens que tem como responsabilidade serem independentes financeiramente, terem que alcançar o sucesso profissional, ser o provedor da sua família. O Serviço Social se caracterizava fundamentalmente pela participação de moças e senhoras da sociedade burguesa, sendo necessária para o ingresso na carreira de Assistente social uma série de qualidades que eram vistas como naturais no comportamento feminino, isto é, além de possuírem a mais integra formação moral, as moças deveriam ser pessoas calmas, simpáticas, comunicativas, de bom-humor, ter sentimento de amor ao próximo. O Serviço Social era visto como mais um cômodo da casa, onde a Assistente Social cuidava de tudo e de todos. Uma moça bondosa e caridosa, “cheia de qualidades femininas” e não poderia ser diferente, as bases iniciais da profissão possuíam essa vertente.
Todavia, mudanças aconteceram, a profissão passou por uma reconceituação e, atualmente, possui um Projeto Ético Político que reúne os valores e objetivos da profissão, que tem a liberdade como valor central e defende um projeto societário que busca a construção de uma nova ordem social, a favor da equidade e da justiça social, rompendo com o conservadorismo. Esse processo é suficientemente claro e explicita o que nos quadros de hoje realmente é o Serviço Social e o que é ser Assistente Social, um profissional que trabalha com a garantia de direitos, então porque os homens também não podem ocupar esse espaço profissional, porque um homem não pode trabalhar garantindo direitos? Ainda permanece incutida na profissão uma imagem feminina e isso faz com que o trabalho de um (a) assistente social seja visto como um favor, alguém que veio para ajudar, que não exigisse qualificação e tudo isso se reflete na desvalorização que é dada ao profissional de Serviço Social, através dos baixos salários que lhes são auferidos, através da baixíssima ou quase inexistente procura de homens pela profissão.
O Serviço Social [ainda] é uma profissão gendrada, mas esses papéis pré-moldados podem ser desconstruídos, abrindo-se o leque da diversidade, da tolerância e do respeito, levando mulheres e homens a refletirem sobre os padrões, lugares e posições que lhes são impostos, de modo a não aceitá-los de olhos vendados, ou seja, as pessoas podem usar a cor que quiserem, uma criança pode brincar do que quiser e ser o que quiser, uma menina pode ser uma Engenheira Civil e um menino pode ser um Assistente Social, pois isso é uma escolha pessoal de cada um.

MENSAGENS SUBLIMINARES...


Um pouco de humor para refletir!

FONTE: http://memetizando.com/2012/10/10/sociedade-machista/

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O COMEÇO DO MACHISMO

Adão e Eva de Fernando Botero

O COMEÇO DO MACHISMO…   

Podemos perceber que as histórias bíblicas ou mitológicas, utilizadas para explicar a origem de tudo, já atribuem um lugar inferior e um caráter facilmente corruptível para as mulheres. Eva, por exemplo, criada após e a partir do homem (sua costela) é o grande pivô do pecado original, pois insatisfeita com sua condição e querendo ser mais do que poderia, afinal, a cobra prometeu-lhe que se esta comesse do fruto proibido poderia alcançar tudo o que desejasse sem ter que obedecer ao Criador. Então, Eva tomada por sentimentos ruins que não condiziam com sua construção de criatura perfeita criada por Deus, convence Adão a também comer o fruto, o único que não podia, e deu-se a desgraça deles e de seus descendentes – a humanidade.
Longe de qualquer preconceito em relação à religião, o que precisamos ter em mente é como tais questões foram e são interpretadas e internalizadas pela humanidade, ao longo dos tempos. Sim, porque tais passagens podem servir para a construção social da mulher como alguém não confiável, a responsável pelos problemas da humanidade. Serve também para legitimar e justificar práticas, ações, juízos de valor e todo tipo de violência a que a humanidade dispensou às mulheres, com o aval da história e da igreja, visto que esta última sempre exerceu forte influencia nas sociedades e, até os dias de hoje, ainda exerce forte influência em Estados laicos, o que explica a desigualdade de gênero, o porquê da mulher sofrer tanto (ora, ela esta pagando pelo seu pecado original!), o porquê de estereótipos e estigmas de fundo religioso e moralista acerca da mulher ainda serem aceitos até os dias atuais.
Tudo isso, sem dúvida, acaba por se reverter em construções de gênero, pois, uma vez que as mulheres já trazem esse ranço histórico de causadoras da barbárie, necessitam se purificar, ou seja, adotarem condutas adequadas para que possam se redimir e, consequentemente, livrarem-se da “herança genética” de Eva.
Tavares (2006), inspirada em Joan Scott, afirma que o gênero possui quatro dimensões e uma delas é justamente a dimensão simbólica, através da qual a cultura nos fornece símbolos que nos levam à percepção de dois modelos femininos antagônicos, por exemplo, a Virgem Maria/a santa e Eva, a pecadora ou mais recentemente, a mulher que é para casar e a outra que só serve para “ficar”.
Portanto, as mulheres precisam ser santas, purificadas, e a única forma de conseguir isso é seguindo os preceitos religiosos – casando-se (com um homem), procriando e vivendo inteiramente devotadas para a família. Além disso, devem ser mantidas sob vigilância, a fim de que não sejam corrompidas. Em outras palavras, enquanto a primeira é dessexualizada e se torna sinônimo de virtude, a segunda representa lascívia, desordem e perigo.
Tavares (2012), reportando-se a Del Priore (1993), argumenta que não é à toa, portanto, que “desde o Brasil Colônia, as mulheres serão submetidas a uma pedagogia pietista, de forma a favorecer a sociedade patriarcal e o projeto de colonização, povoamento, seu corpo adestrado para atender os interesses do Estado e da igreja, através da procriação. Ao mesmo tempo, contém-se a pretensa insaciabilidade, voracidade do desejo, “natureza” feminina, pois, a única forma para expurgar sua excessiva carnalidade era o exercício de uma sexualidade procriativa, dissociada do prazer. Dessa forma, é sacralizado o papel da mãe/mulher, para quem a concepção é um dever e, do seu oposto, a mulher mundana, cuja sexualidade é exercida livremente, para quem a procriação é um prazer. Se a primeira é venerada, a última é discriminada, denegrida, perseguida”.
Mas, nas mulheres contemporâneas, entre o novo e o velho, tais modelos se entrelaçam e, como anunciam os versos da canção de Rita Lee, nas duas faces de Eva, coexistem a bela e a fera.

FONTES:

TAVARES, Márcia. "Por que falar em gênero?". Texto elaborado para a disciplina Seminários Temáticos I do Curso de Serviço Social à distância da Universidade Tiradentes/ SE, 2006. Disponível em: <http://unitead.micropower.com.br>.
TAVARES, Márcia. A nova mulher frente ao velho homem, 2008. [inédito].
GALEANO, Eduardo. Espejos. Una historia casi universal. Siglo XXI editores. Madrid, fev. 2008.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

GÊNERO X SEXO


"... o sexo é fisiológico e diz respeito às diferenças biológicas entre machos e fêmeas da espécie humana. O sexo é determinado pelas características físicas, equipamento biológico que, de fato, é diferente em homens e mulheres. Já o gênero é cultural, ou seja, ser homem ou ser mulher não implica apenas na fisiologia, mas também em incorporar comportamentos, desempenhar papéis e funções sociais que historicamente foram designadas como masculinas e femininas" (TAVARES, 2006).


REFERÊNCIA:

TAVARES, Márcia. "Por que falar em gênero?". Texto elaborado para a disciplina Seminários Temáticos I do Curso de Serviço Social à distância da Universidade Tiradentes/ SE, 2006. Disponível em: <http://unitead.micropower.com.br>.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012


Campanha "polêmica" da Duloren é retirada de circulação pelo Conar


A campanha da Duloren que gerou polêmica no primeiro semestre de 2012 acaba de ser tirada de circulação pelo Conar, sob alegação de “racismo, machismo e apelação”. Para quem não lembra, o anúncio trazia uma mulher negra de lingerie segurando um quepe ao lado de um militar desacordado.
Na legenda, “Pacificar foi fácil, quero ver dominar”. Entre as justificativas absurdas, exemplos como “a mulher só vai seduzir se puser lingerie” e “botaram uma negra no anúncio porque se passa numa favela e isso é racismo”. Já a própria marca explicou a campanha como  ”pode-se pacificar um morro, mas nem homem nem soldado nenhum é capaz de dominar uma mulher usando lingerie Duloren”.

sábado, 15 de setembro de 2012

A TELEVISÃO E A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM DA MULHER

Parte da entrevista da Antropóloga, Cientista Social e Professora da Universidade de São Paulo (USP), ao Globo Universidade, programa da Rede Globo.



Em entrevista exclusiva ao Globo Universidade, Heloísa Buarque fala sobre a representação do gênero feminino na teledramaturgia, como na nova série da Rede Globo, As Brasileiras. A pesquisadora também analisa como a televisão contribuiu, ao longo dos anos, para construir determinados padrões femininos. “Ao final dos anos 1970 e nos anos 1980, começam a dominar nas novelas as ‘mulheres fortes’, corajosas, que trabalhavam fora e tinham profissão, além de serem glamourosas, bonitas, sensuais e boas mães”, destaca.






GU - Na série “As Brasileiras, atrizes do Brasil interpretam mulheres de determinadas regiões do país, cada uma com uma característica singular. Em sua opinião, como a diversidade cultural pode influenciar homens e mulheres?
HB - Há uma diversidade cultural, e principalmente uma diversidade imensa de condições de vida das mulheres. Ser mulher é muito diferente em cada região do país, mas varia também em termos de cor, classe social, acesso à educação, religião, geração, sexualidade, etc. Uma jovem pobre da periferia de São Paulo vive condições muito diversas se comparada a uma moça rica de uma cidade do interior, por exemplo, que é também muito diversa da situação da sua avó. Além disso, há certamente variações culturais importantes, o que é valorizado em cada contexto. Por exemplo, para algumas moças de classe popular no Brasil, ser uma jovem bonita e sensual pode ser uma forma de ascensão social (a única talvez) através do corpo e do rebolado, que não é valorizada em uma classe social mais elevada, na qual a chance de estudo, formação e trabalho é muito maior. Não é uma diferença de “estados”, não há uma “cultura” paulista, nem uma mulher paulista, mas a diversidade regional no Brasil é inegável. No entanto, é possível notar também consensos em torno de alguns valores, que se expandem para além de cada lugar, como, por exemplo, o fato de que no Brasil se valoriza e se considera positivo que as mulheres trabalhem fora.

GU - Na sua opinião, como a mídia contribui para a construção do gênero feminino? De que forma a teledramaturgia tem ajudado a sociedade a questionar padrões sociais?
HB - 
Em primeiro lugar, gênero trata de construções sociais, históricas, culturais do que é visto como feminino e masculino. Do ponto de vista da teoria que eu ensino e com a qual trabalho, ser mulher e como se comportar em uma sociedade é algo que não é determinado pelo corpo ou pela biologia, mas é um aprendizado cultural (Por isso Simone De Beauvoir dizia, “não se nasce mulher, torna-se mulher). Ou seja, ser mulher, ou ser homem, varia muito em cada sociedade, em cada época. Se na época da minha avó era preciso que uma mulher de camada média, para se casar, fosse recatada, soubesse costurar e cozinhar, esse era um valor que já não permanece mais na nossa sociedade. Mas essa situação fazia com que as mulheres de baixa renda na época tivessem que, por necessidade, trabalhar fora – como empregadas, babás, cozinheiras, lavadeiras, passadeiras e até como prostitutas. Esse trabalho não era bem visto, mas era inevitável. Havia assim uma construção ideal da feminilidade que não cabia na realidade das mulheres mais pobres, que tinham que trabalhar para sustentar a família. Elas estavam excluídas da feminilidade ideal da época.

De onde vêm essas construções culturais ideais? Elas vêm da família, da religião, da escola, das chamadas “instituições sociais”, digamos assim. E isso varia muito em cada cultura, e ao longo da história. Nos anos 1940/50, por exemplo, o cinema de Hollywood foi um dos lugares de produção dessas construções de gênero, definindo, por exemplo, padrões de beleza, de moda, e mesmo de comportamento, inclusive sexual. A moça tinha ser sensual, mas no limite, recatada e preferencialmente casar virgem.
Hoje, no Brasil, e isso desde os anos 1970, a televisão é um dos lugares de construção desses padrões femininos ideais. Nos anos 1970, as heroínas das novelas tinham que ser relativamente recatadas e sofredoras – havia um padrão de novelas e uma censura forte controlando o que poderia ser dito e mostrado na TV. Ao final dos anos 1970 e nos anos 80, isso muda radicalmente: começam a dominar nas novelas as “mulheres fortes”, corajosas, que trabalhavam fora e tinham profissão, além de serem glamourosas, bonitas, sensuais e boas mães. Eu acho que essa é uma fase de transformação na construção de gênero na TV brasileira (e consequentemente no Brasil) e, por isso, atualmente tenho estudado o seriado “Malu Mulher”, que é visto como “pioneiro” nesse sentido.
A partir dos anos 80, a moralidade sexual vai mudando, primeiro nos grandes centros urbanos, como no Rio de Janeiro e São Paulo. De modo que nos anos 90 o ideal feminino é o que chamei de “super-mulher” – é boa esposa, boa mãe, trabalha fora, deve ler linda, se cuidar, cuidar da casa, e também ser sensual. Isso não está só nas novelas - está também nos anúncios publicitários, nos filmes, revistas, e outros bens culturais que a gente consome. Temos um padrão de beleza feminino muito cruel – a mulher tem que ser linda, magra, elegante, não envelhecer – e para isso se cria um imenso mercado de cosméticos, dietas e cirurgias plásticas.
Essa construção ideal se dá sem ter sido planejada necessariamente por alguém, mas o fato é que a novela, por exemplo, foi incorporando a ideia de uma relativa liberdade sexual feminina e do trabalho feminino como valor (as “Helenas” de Manoel Carlos, por exemplo, são sempre mulheres com vida profissional estabelecida). O perturbador, é que, no entanto, continua-se achando que quem cuida dos filhos e da casa tem que ser a mulher - por isso, todos os anúncios de produtos alimentícios e de limpeza são direcionados à “dona de casa”, ou a uma mulher. Não incorporamos, por exemplo, outros valores que vieram do feminismo e estão mais presentes em outros países, como a divisão do trabalho doméstico. Estamos, aos poucos e lentamente, colocando os homens também para cuidar das crianças, mas dificilmente como “donos de casa”.
Assim, há esse ideal feminino que permeia todas as classes sociais – de modo que a mulher que não é bonita é vista como “desleixada”; aquela que não trabalha, é vista como incompetente ou preguiçosa. Mas não há UM só tipo. A mídia e o imaginário social foram permitindo cada vez mais certas diversificações – tanto que é possível dizer que as jovens hoje têm mais possibilidades de estilos diversos do que antes - hoje a menina pode jogar futebol, por exemplo, o que, quando eu era menina, era impossível. Hoje há mais nuances, embora os modelos “moça de família” ou “biscate” ainda existam socialmente, e ainda exista muito machismo e desigualdade social.
GU - O machismo é um dos grandes problemas enfrentados pelas mulheres até os dias de hoje, sobretudo em relação a algumas profissões no mercado de trabalho e em algumas culturas. A seu ver, por que ele ainda persiste em nossa cultura, em pleno século XXI?
HB -
 Ainda há muito machismo no Brasil e no mundo. Algumas coisas ainda me chocam muito. O nível de violência doméstica ainda é muito alto no Brasil. Ainda se acha normal que o homem (veja, essa é uma construção cultural de gênero) seja agressivo em algumas ocasiões. Assim como na sexualidade, em que o impulso sexual é naturalizado para os homens: eles são vistos como “naturalmente” infiéis, por exemplo. Mas voltando à questão da violência doméstica, ainda se imagina que uma mulher pode ficar chata e “mereça” apanhar, e que deve aguentar calada. E é por isso que fizemos uma lei mais dura, a chama “lei Maria da Penha”. Temos ainda muitos casos de mulheres que denunciam a violência do (ex) companheiro, e a polícia ainda não leva isso a sério. Depois vemos essas notícias de assassinatos brutais, descobre-se que a moça assassinada já vinha lutando, mas que não teve apoio nem na delegacia de mulheres. É preciso lembrar que essa violência acontece em TODAS as classes sociais. E sim, ainda há muito por vencer também no mercado de trabalho.
GU - A seu ver, no que a mulher brasileira se difere das mulheres ao redor do mundo? O que você acha, por exemplo, das mulheres no mundo árabe?
HB - 
Sim, as mulheres brasileiras diferem entre si – ser índia no Norte do país, ser uma mulher urbana de classe média com alta escolaridade, ser doméstica migrante, são situações muito variadas e que, muitas vezes, inclui várias nuances nos padrões de gênero. E fora do Brasil, há países que enfatizam muito mais, por exemplo, o trabalho e a carreira feminina e se promove muito mais uma divisão melhor do trabalho doméstico (como na Europa). Em outros países, como o México, o trabalho feminino fora de casa ainda é um tema polêmico, ao passo que o padrão de beleza é fortíssimo e constrangedor. Quanto às mulheres islâmicas, acho que há muito preconceito nosso e ainda pouco conhecimento da sua situação real, mas é preciso lembrar que lá também existe movimento feminista, por exemplo.
Mas, no Brasil, por exemplo, se eu disser para você que sou feminista, você já pode imaginar uma mulher “feia”, mal-amada, que não gosta de homens e que é grossa. Há um preconceito terrível. As moças acham que não precisam mais de feminismo, mas não sabem que foi por causa dele, por exemplo, que as mulheres não precisam mais casar virgens, como acontecia há uma ou duas gerações, que elas podem ter acesso a meios de contracepção e adiar a maternidade, entre outras coisas. Muitas vezes as pessoas acham que o feminismo é cruel porque, no Brasil, as mulheres têm que trabalhar fora e dar conta da casa, mas não sabem que o feminismo pregava a divisão do trabalho doméstico, por exemplo, coisa que ainda vemos pouco aqui.


Fonte: redeglobo.globo.com/globouniversidade